Passam de 300 mil sem luz nas áreas da Enel
Maurício Corrêa, de Brasília —
Este site até tenta ter um pouco mais de paciência com a empresa italiana Enel, que toca três concessões de distribuição de energia elétrica no Brasil (Ceará, Rio de Janeiro e área metropolitana de São Paulo), mas é difícil.
A manchete que abriu o site nesta quinta-feira, dia 13 de fevereiro, dizia que “100 mil pessoas estavam sem luz, no início da noite, nas três concessões da Enel”. A situação ficou pior de ontem para hoje nas três áreas sob concessão da Enel. Por baixo, cerca de 350 mil pessoas estavam sem luz nas áreas concedidas à Enel no início da noite desta quinta-feira nos três estados.
Só nos municípios da Grande São Paulo, segundo boletim distribuído pela empresa às 19 horas, havia 108.620 unidades consumidoras sem energia elétrica, significando 1,31% do total de UCs atendidas pela concessionária.
Os municípios mais atingidos foram Barueri, Carapicuíba, Cotia, Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra, Itapevi, Jandira, Mauá, Pirapora do Bom Jesus, Ribeirão Pires e a Capital. A situação era especialmente dramática em Itapecerica (9,56% das UCs sem luz), Itapevi (11,45%) e Ribeirão Pires (15,27%).
Na Capital do estado de São Paulo, percentualmente o número era relativamente baixo, apenas 0,85% das unidades consumidoras, mas o número absoluto era alto: 47.289 UCs totalmente no breu.
Às 17 horas, a Enel SP disponibilizou na internet um comunicado assinalando que “nossas equipes estão nas ruas trabalhando para restabelecer o fornecimento de energia para os clientes afetados pelas chuvas e raios que atingiram a capital e região metropolitana na tarde de hoje (13/02). A região Oeste foi a mais impactada em nossa área de concessão”.
Na área sob responsabilidade da Enel, no Estado do Rio de Janeiro, hoje também a situação piorou em relação a ontem. Às 18h50m, havia um total de 3.069 unidades consumidoras sem luz (0,10% do total). Proporcionalmente, o caso mais grave era no município de São José do Vale do Rio Preto, com 544 UCs desligadas, 5,05% do total.
No Ceará, igualmente, os consumidores estavam passando dificuldades com a falta de luz, segundo um boletim liberado pela empresa às 18h20m. No total, na área de concessão, havia nesse horário 11.085 UCs sem energia elétrica, representando 0,27% do total. Os casos mais difíceis foram registrados nos municípios de Barurité, Canindé, Cruz, Itapiúna, Mauriti, Sobral e Viçosa do Ceará. Em Canindé, 11,08% das UCs estavam sem energia elétrica nesse horário.
Este site reitera que não persegue a Enel (aliás, a empresa não faz qualquer acusação neste sentido, vale ressaltar). Entretanto, há questões óbvias que não podem deixar de ser colocadas: a Enel opera em outros países (Chile e Argentina, aqui perto). Como será a percepção dos reguladores desses países pelo trabalho oferecido pela Enel? Será que o desastre ocorre apenas no Brasil? Será que só no Brasil as chuvas e os ventos atrapalham a distribuição de energia elétrica feita pela Enel?
Além disso, comparando com o Brasil, outras distribuidoras atendem grandes números de consumidores. O “Paranoá Energia” lembra aqui a Energisa, a CPFL e suas controladas, a Equatorial, a Cemig, a Copel e a Neoenergia, por exemplo. Será que todas elas se relacionam com as suas respectivas bases de clientes da mesma forma que a Enel? Como operam os seus recursos? As chuvas também incomodam essas distribuidoras da mesma forma que na Enel São Paulo?
Outra coisa que desperta a atenção de quem acompanha o trabalho da Enel é o inexplicável silêncio da Aneel.
Em 1º de abril deste ano, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, convocou a diretoria da Aneel em seu gabinete, deu um carão em todo mundo e entregou uma carta, determinando que a agência abrisse um processo disciplinar contra a concessionária Enel SP, o qual poderia terminar até na perda da concessão.
Foi ume enorme coincidência, pois, afinal 1º de abril é conhecido no Brasil como o “dia da Mentira”. Um mês e meio depois, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro Alexandre Silveira, tiveram uma surpreendente e misteriosa reunião com o alto comando da Enel, na Itália, quando o assunto estava nas mãos da Aneel. Numa questão em que não havia qualquer razão para ter intervenção do próprio presidente da República, este afirmou aos jornalistas que o entrevistaram que, na semana seguinte, o ministro Silveira apresentaria uma proposta ao presidente para renovar a concessão. Não se falou mais na carta de 1º de abril. Dentro de poucas semanas, será o momento de soprar a vela do primeiro aniversário da carta de Silveira. O 1º de abril está perto.
Só em outubro, seis meses depois da tal carta entregue pelo MME, a Aneel intimou a Enel, dando início formalmente ao processo de caducidade da concessão. Desde então, a Aneel, que já estava muda, ficou mais calada ainda.
E a luz continua a faltar não apenas na área metropolitana de São Paulo, mas nas três áreas de concessão atendidas pela empresa italiana. Este site praticamente a cada dia cutuca a onça com a vara curta, mas não acontece nada. Ninguém faz nada, ninguém diz nada.
A Enel continua na dela, operando normalmente, como se não existissem a Aneel, o MME e o Palácio do Planalto. Milagrosamente, a Enel passou a existir como se fosse da casa. O ministro chegou a ir ao anúncio de investimentos pela Enel, em São Paulo, num dia, aliás, em que faltou luz na cidade.
O site “Paranoá Energia” é apenas um veículo de comunicação. Não é órgão de polícia, do Judiciário ou do Legislativo. Só pode fazer aquilo que veículos de comunicação fazem todos os dias, que é comunicar.
Então, o site “Paranoá Energia” mais uma vez lembra a todos os seus leitores (muitos vivem nas regiões pessimamente atendidas pela Enel), que os responsáveis pelo lamentável serviço oferecido pela empresa italiana no Brasil são três, basicamente: o presidente Lula, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa.