Eletrobras quer dar a volta por cima e recuperar a confiança
Maurício Corrêa, de Brasília —
Mais caracterizada, nos anos dourados do petismo, pelo fisiologismo, pela obediência irrestrita à vontade da presidente afastada Dilma Rousseff, pela ineficiência, pelos gordos prejuízos (R$ 35 bilhões nos últimos quatro anos) e até mesmo por histórias ainda não totalmente explicadas a respeito de um possível eletrolão, a holding estatal Eletrobras quer dar a volta por cima. Agora, o seu discurso se pauta pela busca da eficiência, pelo fim das aventuras, pela gestão da qualidade e obsessão pelo menor custo, com foco na criação de valor honesto e no combate à impunidade. Tudo isto visando a recuperar a confiança da sociedade e dos agentes econômicos.
Esse mantra da nova Eletrobras foi dito pelo engenheiro e administrador Wilson Ferreira Junior, empossado como presidente da estatal em concorrida solenidade realizada no Ministério de Minas e Energia, em Brasília, nesta quarta-feira, 27 de julho. Ferreira Junior não é possuidor de uma pedra filosofal, mas seu discurso ganhou força e foi amplificado pelos pronunciamentos feitos pelo titular do MME, Fernando Coelho Filho, e pelo presidente do Conselho de Administração da Eletrobras, José Luiz Alquéres, ambos na mesma linha de raciocínio.
Depois de 18 anos como executivo de alto coturno do Grupo CPFL, onde ocupou as presidências da distribuidora gaúcha RGE, da CPFL Paulista e da CPFL Energia, além da presidência da Abradee (associação dos distribuidores) Wilson Ferreira Junior está otimista para enfrentar o novo desafio. “Eu me sinto preparado”, afirmou, salientando que vai trabalhar com objetivo de compatibilizar os interesses dos acionistas e da sociedade e que “não há tempo a perder” diante da magnitude dos desafios que terá pela frente ao liderar a equipe que pretende recuperar a maior empresa de energia elétrica da América Latina.
Ele admitiu que, depois de muitos anos de sucesso profissional, estava em condições para se dedicar mais à família, mas também reconheceu que “há momentos na vida em que não podemos nos omitir”. Nesse contexto, Wilson entra de peito aberto na presidência da Eletrobras, em uma experiência de trabalho na qual ele deposita “as melhores expectativas”.
Como frisou em seu discurso (claro, calmo e pausado), a estatal já deu muito orgulho ao País e ainda dispõe de capacidade técnica, operacional e excelência de recursos humanos para oferecer ótimos resultados ao País. “A crise põe em cheque as certezas acomodadas”, advertiu, lembrando também que o modelo centralizado no qual foi construída a Eletrobras, caracterizado por empresas pesadas e lentas, ruiu e não se sustenta mais, principalmente em um contexto no qual “os clientes têm mais voz e mais poder”. O novo presidente também está atento ao impacto das novas tecnologias.
Parafraseando o jornalista e técnico de futebol João Saldanha, Wilson Ferreira Junior frisou que “treino é treino e jogo é jogo. Agora é a hora de jogar”. Na sua visão, a Eletrobras não está descolada da sociedade brasileira e precisa, sim, batalhar pela ética e pela transparência. No entendimento do novo presidente, a estatal precisa estar atenta para abrir os números com os quais trabalha e explicar as planilhas. “Chega de escaninhos secretos quanto aos recursos públicos”, afirmou Wilson.
O executivo assinalou que um dos seus objetivos será fortalecer a comissão independente que, sob a coordenação de Ellen Gracie, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, examina denúncias de corrupção envolvendo a empresa na construção de hidrelétricas. A comissão tem prazo até 11 de outubro para terminar os trabalhos. Ele entende que a corrupção é uma espécie de “lixo tóxico”, que pode destruir empresas inteiras, razão pela qual é preciso atuar fortemente para que isso não aconteça dentro da Eletrobras.
Além disso, ele entende que a Eletrobras está em condições para liderar a matriz energética brasileira quanto à maior participação de energia limpa e renovável. E conta com o decidido apoio dos 21 mil empregados da empresa “para abraçar este esforço de transformação”.
As prioridades da sua gestão são o resgate da sustentabilidade financeira, a busca da excelência operacional, o foco empresarial, a continuidade das obras em andamento (não criando novos passivos) e a desmobilização de alguns ativos. O futuro da Eletrobras na sua visão passa necessariamente por algumas palavrinhas mágicas, não valorizadas internamente nos últimos anos: respeito, diálogo e engajamento. “As sombras do presente não devem nos intimidar”, filosofou. “O futuro que teremos é aquele que saberemos construir”, disse.
“A Eletrobras é uma empresa pública de capital aberto, mas não pode ser confundida com órgão de Governo”, disse Wilson Ferreira Junior. José Luiz Alquéres fez um discurso na mesma linha e disse que concorda totalmente com os argumentos apontados pelo presidente executivo. “Vou apoiar em tudo para que seja o melhor presidente da história da Eletrobras. Estou aqui para ajudar”, disse Alquéres, frisando que a Eletrobras já foi a maior empresa de todos os setores na América Latina, mas que sofreu uma “brutal destruição de valor”, numa combinação de “ignorância e má fé”.
Sentado poucos metros à sua frente, estava Márcio Zimmermann, que durante anos foi secretário-executivo do MME e que durante nove meses foi inclusive ministro de Minas e Energia, sendo considerado um dos responsáveis pela implementação da MP 579. É consensual entre os especialistas do setor elétrico que a MP 579 foi a grande causadora do naufrágio empresarial da Eletrobras. O nome de Zimmermann sequer foi citado por Wilson, Alquéres ou pelo ministro.
“Queremos uma empresa de pessoas boas, para que o mal seja repelido”, disse Alquéres, acrescentando que o propósito da nova gestão é afastar a corrupção, o fisiologismo e o ideologismo. “O público tem que ser mais informado”, frisou, explicando que o público precisa entender mais as opções energéticas da companhia, citando como exemplos os projetos de desenvolvimento da energia nuclear ou mesmo a construção de usinas na região amazônica. “O Brasil mudou. O sistema elétrico mudou. A Eletrobras tem que mudar”, sentenciou Alquéres.
O discurso do ministro Fernando Coelho Filho foi essencialmente político e motivador. Brincando, ele lembrou que muita gente estranhou quando ele foi nomeado para ser o titular do MME, em meados de maio, sem ter experiência no setor elétrico. Ele, entretanto, assinalou que a sua grande preocupação era formar uma equipe de qualidade técnica e colocar as pessoas para conversar e acertar mais. “Não há tempo para respeitar as pequenas igrejas”, disse o ministro.
Na sua visão, a economia já tem dado sinais de revitalização e que, nesse processo, o país precisará de energia com preços competitivos. “O Brasil vai dar certo”, garantiu, salientando que pessoalmente está “extremamente animado, feliz e realizado”, principalmente porque conseguiu formar “o melhor time possível”. A sua esperança é que a Eletrobras não seja mais “motivo de peso e constrangimento” e tem certeza que a estatal “vai sair brevemente desta situação e voltará a ser indutora do desenvolvimento brasileiro”.
O ministro entende que o mundo está de olho no Brasil e, nesse contexto, quem está lá fora olhando para o país normalmente está comprado em papéis da Eletrobras e da Petrobras. Ele acredita que ainda é prematuro para dizer que os problemas estão resolvidos, mas que o país está no caminho certo.