Otimista, Abradee acredita que projeto do novo modelo deslancha em janeiro
Maurício Corrêa, de Brasília —
O presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Nelson Fonseca Leite, saiu mais do que satisfeito de uma reunião realizada na sede da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), nesta quinta-feira, 17 de novembro, quando foi apresentado o projeto estratégico de novo modelo do setor. Na sua avaliação, os técnicos da Aneel receberam muito bem a proposta de trabalho formulada pelo Consórcio Bain.
“Saímos da reunião com a firme expectativa que a agência deverá aprovar o projeto. Assim que isso acontecer, em janeiro serão assinados os contratos com os consultores e imediatamente serão abertas as ordens de serviço. E vamos começar a trabalhar imediatamente na parte técnica do projeto”, disse Nelson Leite a este site.
No seu entendimento, essa é uma fase delicada e consiste numa espécie de “segredo do sucesso”, pois é preciso especificar bem os detalhes do contrato, para que depois possa se verificar se determinado pesquisador entregou o serviço que de fato foi contratado. “Já estamos trabalhando nos contratos”, acrescentou.
Da reunião na agência reguladora, além dos diretores da Abradee participaram diretor de regulação da Coelba, José Eduardo Tanure, diretor de Regulação da distribuidora Coelba e gerente do projeto; os representantes do Consórcio Bain; o diretor Tiago Correia, da Aneel, que é o relator da proposta na diretoria colegiada; os coordenadores técnicos Mário Veiga e Ivan Camargo; Máximo Luiz Pompermayer, superintendente da Aneel e responsável pelos projetos de P&D; e os representantes do chamado Comitê Interveniente, constituído pelo ONS, CCEE e EPE.
Esta quinta-feira, foi um dia pesado para a Abradee. Afinal, houve uma reunião durante toda a manhã na sede da associação, quando o projeto foi debatido internamente. Toda a parte da tarde foi passada na reunião na Aneel, quando a proposta foi exaustivamente discutida com os técnicos da agência. Embora não escondessem o cansaço, o presidente e o diretor Marco Delgado ainda estavam falando sobre o novo modelo, com este site, às 8 horas da noite.
Delgado explicou ao “Paranoá Energia” que a proposta de novo modelo, através da aplicação de um projeto de P&D Estratégico envolvendo a Abradee começou ainda na gestão anterior do Ministério de Minas e Energia, quando o atual diretor-geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Luiz Eduardo Barata, era o secretário-executivo da Pasta. “A primeira reunião do Barata como secretário-executivo foi exatamente para tratar deste assunto”, afirmou Marco Delgado.
De fato, o antigo secretário-executivo, dentro da estrutura anterior da Pasta, era a pessoa que mais reunia condições para falar sobre um novo modelo. Seu antecessor, Márcio Zimmermann, liderava uma espécie de fiel guarda pretoriana do modelo engendrado quando a ex-presidente Dilma Rousseff tinha sido ministra de Minas e Energia, e não conseguia perceber que o arcabouço legal estava todo remendado e falido. Coube a Barata iniciar os debates.
Nelson Leite disse que, em seguida, o assunto começou a ser discutido no âmbito do Fórum das Associações do Setor Elétrico (Fase), onde se concluiu que os recursos poderiam vir através de um P&D Estratégico liderado pela Abradee. Entretanto, com a confusão política gerada pelo impeachment da presidente Dilma, o tema ficou discretamente engavetado, até que renasceu com força na gestão do ministro Fernando Bezerra Coelho Filho. O atual secretário-executivo do MME, Paulo Pedrosa, sempre foi um firme defensor de um modelo mais liberal para o setor elétrico e nunca escondeu a sua aversão às premissas básicas do modelo Dilma.
Dezenas de empresas do setor elétrico aderiram à idéia do P&D Estratégico, que formalmente foi tocado dentro do Instituto Abradee, um braço técnico da associação. “Cinquenta e cinco das empresas interessadas em copatrocinar o projeto nem são mantenedoras do Instituto Abradee”, assinalou o presidente da associação, o que mostra o forte interesse do setor elétrico em contar com um novo modelo.
Foi promovida uma chamada ao mercado e oito candidatos demonstraram interesse inicial no projeto, entre os quais alguns dos maiores nomes globais nas áreas de consultoria em estratégia e gestão: McKinsey, Bain, Roland Berger, Ernst & Young e Accenture. A Comissão de Avaliação fez uma análise inicial e sobraram as três primeiras, que foram convidadas para apresentar propostas. “O Instituto é uma entidade privada e não precisa fazer licitação. Mesmo assim, como temos compromisso com a transparência, fizemos questão de seguir o rito legal de muitas das nossas associadas e optamos pela chamada”, explicou Nelson Leite.
Para a Comissão de Avaliação não faltou trabalho. As propostas da McKinsey, Bain e Roland Berger foram sabatinadas e depois submetidas ao crivo rigoroso de receber notas de zero a cinco em 10 quesitos, incluindo originalidade da proposta, experiência do consórcio, atendimento ao escopo do que estava sendo pedido, qualificação dos consultores técnicos, etc. O Consórcio Bain, que se saiu vencedor, apresentou uma relação contendo os nomes de 160 pesquisadores que vão trabalhar no projeto.
Os dois diretores da Abradee não se preocupam com o fato de o projeto terminar em meados de 2018, quando o País já estará em ebulição e no meio de uma campanha presidencial. Nas últimas eleições presidenciais, o setor elétrico foi alvo das campanhas dos candidatos. Assim, o projeto de P&D Estratégico está tendo o cuidado de produzir resultados em prazos intermediários, o que significa que por volta de maio de 2017 já estará começando a soltar os primeiros produtos devidamente implementados pelas autoridades do setor elétrico.
Também há uma percepção, dentro do setor elétrico, que um projeto dessa envergadura, que vai alterar de forma radical uma parte estratégica da infraestrutura, não pode se perder no meio da confusão da política partidária.
“Estamos trabalhando em um projeto que será fundamental para o País. A nossa esperança é que a maior parte da proposta final que será produzida seja efetivamente acatada pelas autoridades, pois a implementação das medidas é responsabilidade do Governo. Este é o papel dele. Compreendemos a importância da eleição, mas o projeto não tem cor partidária. Ele é muito maior do que as disputas políticas”, afirmou Leite.