Celso Ferreira: o engenheiro que ajudou a iluminar o Brasil
Maurício Corrêa, de Brasília —
O cidadão comum que cruza com o engenheiro eletricista aposentado Celso Ferreira caminhando calmamente no calçadão do Leblon ou Ipanema, de bermudas e tênis, nem pode imaginar que passa por ele um dos principais responsáveis pela estruturação do moderno sistema elétrico brasileiro.
Celso Ferreira é, aos 75 anos de idade, um homem realizado. Nascido na pequena Lambari, no Sul de Minas, no chamado “Circuito da Águas”, é calmo, como os mineiros da região, e metódico, como a maioria dos engenheiros. De sorriso fácil e fala mansa, hoje se considera totalmente à vontade na posição de quem só quer sombra e água fresca, depois de mais de 50 anos dedicados à nobre instituição chamada trabalho.
Seu pai, um comerciante criativo e trabalhador, nasceu em Lambari; a mãe, em Bragança Paulista. Ferreira estudou no Colégio Marista, em Varginha. Depois tirou o primeiro lugar no vestibular e ingressou no então denominado Instituto Eletrotécnico de Itajubá (IEI), que foi o embrião da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), um dos mais influentes núcleos de estudos em energia elétrica do País e instituição de renome internacional.
Tendo se classificado como primeiro aluno do vestibular para Engenharia Elétrica no IEI, ganhou uma bolsa de estudos da siderúrgica Belgo Mineira (hoje ArcelorMittal). Desde então, ao longo de toda a vida de trabalho, Ferreira só colecionou sucesso e respeito.
Depois de formado, começou a trabalhar, em 1966, na Companhia Auxiliar de Empresas Elétricas Brasileiras (CAEEB), que, na época, era uma holding de 10 empresas de energia elétrica, antigos ativos da American & Foreign Power, uma companhia americana criada em 1923 e nacionalizada em novembro de 1964.
Essas empresas da Amforp fizeram parte da Eletrobras, através da CAEEB, entre 1965 e 1968, quando então quase todas foram incorporadas às concessionárias públicas estaduais. O fato concreto é que, a partir da década de 60, havia uma grande preocupação no país com a modernização das áreas de infra-estrutura em geral e o setor elétrico beneficiou-se com isso.
Em 1969, Celso Ferreira foi indicado para fazer um mestrado nos Estados Unidos, em um projeto que tinha apoio do Banco Mundial e que selecionou 10 engenheiros por ano, durante cinco anos, para conhecer um sistema muito mais evoluído do que o brasileiro na época. Esse mestrado reuniu pessoal altamente qualificado das estatais, não apenas da holding Eletrobras — que era uma empresa que sequer tinha completado 10 anos de existência em 1969 — mas, também de Cesp, Cemig e Furnas.
Em 1970, voltando dos Estados Unidos, Ferreira ingressou nos quadros da Eletrobras, onde teve condições para aplicar o seu conhecimento e contribuir para a formatação de uma estatal moderna, de alcance nacional e que efetivamente pudesse ajudar no esforço de integração nacional e de redução das desigualdades regionais, que era o grande objetivo estratégico do momento.
“Construir o sistema elétrico naquele início dos anos 70 foi um belo momento não somente das nossas vidas, mas também da Eletrobras e do setor elétrico brasileiro. Éramos engenheiros eletricistas jovens, na faixa dos 30 anos de idade. Muitos já tinham passado pelo mestrado nos Estados Unidos. E estávamos imbuídos daquele espírito de construir um Brasil moderno, com infra-estrutura adequada, que permitisse, enfim, sair da situação de pobreza que então caracterizava a maior parte do nosso País”, afirmou Ferreira a este site.
Na Eletrobras, ele passou a fazer parte de um núcleo de engenheiros eletricistas que tinham muitas idéias boas para o País. Esse núcleo deu origem ao Comitê Coordenador da Operação Interligada (CCOI), que mais tarde virou o famoso GCOI (Grupo Coordenador da Operação Interligada.
O CCOI e depois o GCOI constituíram o que hoje se conhece como Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Pode-se não gostar de alguma coisa que o ONS, dentro de suas atribuições legais, eventualmente faça, mas não se pode negar a qualificação dos seus técnicos e a excelência do seu trabalho.
Nos Estados Unidos, Celso Ferreira teve oportunidade de fazer um estágio em Chicago, quando percebeu a necessidade de interligar as linhas de transmissão. “Nesse início dos anos 70, a operação do sistema elétrico, tal como a conhecemos hoje, não existia. A Light do Rio, por exemplo, sequer atendia a Light de São Paulo se ela precisasse de um suprimento adicional. Mas aos poucos a situação foi mudando. Tínhamos a experiência dos Estados Unidos, onde a operação era feita de modo interligado regionalmente. Começamos a replicar o modelo aqui. A Light do Rio se interligou com a Light de São Paulo, depois Cemig e Furnas foram se juntando e a nossa experiência de interligação começou dessa forma”, explicou.
O núcleo que deu origem ao CCOI começou a trabalhar informalmente. Por volta de 1972/73, a Eletrobras contratou um grupo de consultores espanhóis, que trouxeram para o Brasil a experiência da Europa em matéria de operação de sistemas interligados. Havia, então, uma grande preocupação com o fornecimento de energia elétrica em um país de dimensões continentais como o Brasil, pois, em 1971, houve um racionamento muito forte em regiões do Sudeste, quando se percebeu que uma área não tinha qualquer obrigação para atender a outra que estivesse sofrendo com a falta de energia elétrica.
Os engenheiros da Eletrobras começaram então a produzir manuais técnicos e a detalhar as normas que foram dando origem ao trabalho coletivo. Daí ao GCOI foi um pulo. Em 1974, o GCOI foi criado por lei e o lendário José Marcondes Brito de Carvalho foi indicado diretor de Operações da Eletrobras e coordenador do GCOI.
Brito é considerado uma espécie de “pai” do Sistema Interligado Nacional (SNI). O outro braço da Diretoria de Engenharia era o Grupo Coordenador do Planejamento dos Sistemas Elétricos (GCPS). Juntos, esses dois grupos representaram a época de ouro da Eletrobras. “O nosso moderno sistema elétrico nasceu aí”, afirmou Ferreira.
Enérgico, Brito coordenou uma equipe altamente disciplinada e competente, que soube vencer o desafio de implantar a operação de um sistema interligado de linhas de transmissão, que, hoje, permite transportar grandes volumes de energia elétrica do Sul para o Nordeste, do Norte para o Sudeste, sem que o usuário comum de energia elétrica tenha a menor noção de como isso funciona tão bem, atendendo a todo o País, embora seja altamente complexo gerenciar tudo isso.
Ferreira passou um longo tempo no GCOI, de 1974 a 1991. No grupo, chefiou o Departamento de Estudos Energéticos (DEE), cuja missão era estudar o setor elétrico e indicar, entre outras atividades, a necessidade de racionamento. Quando deixou o GCOI, foi nomeado diretor de Furnas, onde permaneceu até 2003 e depois, se aposentou como funcionário de empresa estatal federal, mas continuou trabalhando no setor elétrico.
Em Furnas, Celso Ferreira chegou a ocupar a presidência pelo período de um ano. Quando saiu da geradora federal, transferiu-se para a estatal mineira Cemig, onde ocupou o cargo de diretor de Engenharia.
No seu estado natal, ele partiu para uma nova experiência, de participar de projetos de construção de hidrelétricas. Assim é que integrou o grupo que concebeu e construiu as hidrelétricas de Baguari, Irapé, Aimorés, Capim Branco entre outras. Ao deixar a Cemig trabalhou quatro anos na Alupar, empresa que investia em transmissão e estava iniciando investimentos em geração. Nessa condição, se envolveu com os projetos de desenvolvimento e construção das usinas de Foz do Rio Claro, na divisa de Minas Gerais com Goiás, e de São José, no Rio Grande do Sul.
Em seguida, Celso Ferreira trabalhou como diretor da hidrelétrica de Teles Pires. Trata-se de uma UHE nova, construída no rio Teles Pires, na divisa de Mato Grosso com o Pará, e capacidade instalada de 1.820 MW. Fruto de uma sociedade entre o Grupo Neoenergia, Furnas e Eletrosul, Teles Pires foi o último emprego de Celso Ferreira. Aí, ele se aposentou em definitivo e passou a se dedicar apenas à família.
Apreciador de vinho e torcedor do Flamengo (uma espécie de religião que conseguiu transmitir aos filhos), casado com Dona Sônia há mais de 50 anos, Ferreira é um homem feliz. “Eu me orgulho de tudo o que construí no meu trabalho e da família que tenho. Sei que, durante os muitos anos de trabalho, às vezes não pude estar perto da família, o que representou um sacrifício para todos. Mas hoje é diferente. A aposentadoria me permite estar mais perto da esposa, dos filhos, noras e netos”.
De fato, Ferreira tem uma família unida, embora o filho mais velho, Renato, viva nos Estados Unidos há muitos anos. “É uma distância que é compensada de alguma forma pelos aviões e pela tecnologia da comunicação”, afirmou. No Rio, ele e Dona Sônia estão mais próximos dos filhos Ricardo e Rodrigo, que perenizaram a carreira do pai na área de energia elétrica e criaram, há 16 anos, o Grupo “Canal Energia”, do qual faz parte o site do mesmo nome, que é o mais importante veículo de comunicação voltado para o setor elétrico em toda a América Latina.
Celso Ferreira também foi professor da antiga UEG (Universidade do Estado da Guanabara, hoje UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e lecionou temas complexos como Circuitos Elétricos e Proteção dos Sistemas. Entre tantos alunos que teve, é possível citar István Gardos, Paulo Gomes e Luiz Eduardo Barata, que se destacaram no setor elétrico brasileiro.
Fundador de duas associações (Abrate e Abrage), Ferreira foi contemporâneo de engenheiros igualmente brilhantes que ajudaram a construir o moderno sistema elétrico brasileiro. A lista é enorme, mas é possível citar alguns por conta e risco deste repórter: Mauro Arce, Xisto Vieira Filho, Armando Araújo e Mário Santos, entre outros. José Arteiro, que hoje é diretor do ONS e exerce um papel estratégico na operação do sistema, foi estagiário de Ferreira. Hoje, o engenheiro aposentado participa de dois grupos de WhatsAPP e mantém as amizades com os antigos colegas de trabalho.