CCEE muda em quatro dias e confunde mercado
Maurício Corrêa, de Brasília —
Apenas quatro dias depois de divulgar um comunicado salientando que o “PLD deve continuar trajetória de queda nos próximos meses”, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica – CCEE informou, nesta sexta-feira, 02 de março, que o Preço de Liquidação das Diferenças – PLD para o período entre 03 e 09 de março foi fixado em R$ 223,21/MWh nos submercados Sudeste/Centro-Oeste, com aumento de 11%, no Sul (idem) e Nordeste (aumento de 18%). O PLD no Norte, por sua vez, permaneceu no valor mínimo de R$ 40,16/MWh estabelecido para 2018 pela Aneel.
O anúncio do PLD pela CCEE, nesta sexta, naturalmente confundiu os operadores do mercado. “Não entendi nada”, afirmou o diretor de uma comercializadora, salientando que, além de induzir as pessoas ao erro, a CCEE, agindo dessa forma, faz com que seja impossível acreditar também nos números referentes às bandeiras tarifárias e ao próprio GSF.
Na realidade, essa desconfiança em relação aos números da CCEE começou a ser apontada no próprio dia 26, segunda-feira passada. Afinal, como o período úmido no Sudeste já está praticamente chegando ao fim, a tendência é que ocorra justamente o contrário daquela conclusão apontada pela CCEE: o PLD deverá ficar mais caro e não mais barato, considerando que deverá existir menor quantidade de água nos reservatórios..
Um tanto revoltado com o trabalho da CCEE, um operador do mercado argumentou com este site que “infelizmente a discussão do novo modelo apenas tangenciou essa questão da definição dos preços baseados em modelos computacionais. Era necessário aproveitar o novo modelo para simplesmente acabar com os preços definidos pelos computadores. Não foi examinado a fundo”.
No entendimento dessa fonte, não poderia ter sido de outro modo, pois, dentro do MME, as corporações que defendem os modelos matemáticos praticamente teriam se apropriado do projeto do novo modelo, com destaque para o presidente da EPE, Luiz Barroso, que é ferrenho defensor desses modelos computacionais.
Este site conversou com outros comercializadores, os quais lamentam que a questão da definição de preços no setor elétrico tenha enveredado pelo caminho da tecnocracia. Um deles argumentou que seria muito mais simples o vendedor definir quanto quer pela energia e o comprador dizer apenas se está interessado ou não em pagar aquele preço. “É exatamente como comprar um quilo de carne. Mas, não. Burocratizaram o processo de uma maneira tal, que hoje é praticamente impossível cair fora dele”.
Na avaliação de muita gente do mercado, a questão da definição do preço transformou-se numa espécie de garantia da empregabilidade de centenas de pessoas que hoje vivem profissionalmente sem entender como se chega a determinados números na CCEE e no ONS. “Só que isso aumenta demasiadamente os custos para os pobres dos consumidores de energia elétrica, que acabam, sem saber, pagando os altos salários na CCEE, na Aneel, na EPE e no ONS”, lamentou um especialista que acompanha o mercado.
Segundo a CCEE, a previsão de afluências para o Sistema, em março, foi revista de 91% para 88% da média histórica com índices esperados em 88% da MLT no Sudeste, 78% no Sul, 56% no Nordeste e em 109% da média no Norte.
Já a carga esperada para os próximos sete dias deve ficar em torno de 270 MWmédios superior à da última previsão com redução esperada apenas no Nordeste e sem variação no Sudeste. A carga fica mais alta no Sul (+298 MWmédio) e no Norte (+88 MWmédios).
Os níveis dos reservatórios do SIN ficaram cerca de 740 MWmédios mais baixos frente à expectativa anterior com queda verificada em todos os submercados, exceto no Nordeste (+105 MWmédios). As reduções foram de aproximadamente 205 MWmédios no Sudeste, 445 MWmédios no Sul e de 200 MWmédios no Norte.
“Se a CCEE tinha a expectativa que as afluências iam cair, que a carga ia subir e que os reservatórios teriam menos água no reservatório, indicando, portanto, o crescimento no valor do PLD, por qual razão a Câmara comunicou ao público que a trajetória seria de queda nos próximos meses? Esta é uma bela questão, que a CCEE poderia talvez explicar”, declarou um operador do mercado.