Campos Neto: com 3%, parte fiscal melhora
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, avaliou nesta terça-feira, 30, que se o Brasil tiver um crescimento econômico perto de 3%, a dinâmica fiscal começará a melhorar. A revisão do PIB potencial por parte dos economistas, de 1,8% para 2%, ainda é muito baixa, segundo ele.
“Se o País conseguir sair do crescimento de 2% e ir para perto de 3%, a dinâmica fiscal começa a mudar. Se você colocar 3%, 3,5%, você vê que a dívida converge relativamente rápido. Se for 2%, aí fica com dificuldade maior. Se for 2%, você precisa ter aumento de carga tributária ou algum tipo de diminuição de gasto por ineficiência”, disse em entrevista gravada à CNN.
Campos Neto repetiu que o orçamento discricionário do Poder Executivo é pequeno, o que torna difícil imaginar corte de gastos que não passem por mudanças na indexação e na obrigação de gastos. Ele avaliou ainda que o ajuste fiscal pela receita é menos eficiente e mais inflacionário, e disse que há um reconhecimento da classe política de que os juros estão ligados à política fiscal.
Cenários do BC
O presidente do Banco Central afirmou que os cenários traçados pela autoridade monetária visam guiar o mercado em momentos de incerteza. Ele avaliou que houve recentemente um movimento de ajuste de expectativa de preços em meio às dúvidas sobre o cenário externo e sobre a política fiscal no Brasil, com foco inclusive na dinâmica de trajetória da dívida pública.
Campos Neto repetiu que a volatilidade em mercados emergentes atrapalha a transmissão da política monetária. Ele citou que o cenário global ficou mais complicado após a pandemia, período em que houve um elevado aumento de despesas em todos os países do mundo. “Na saída da pandemia, a coordenação entre fiscal e monetário está deficiente”, avaliou em entrevista gravada à CNN.
No caso do Brasil, Campos Neto afirmou que houve um elevado aumento de despesas, mas reconheceu o esforço do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em conter o crescimento dos gastos.
“No Brasil tem uma forte dificuldade de cortar gastos. O governo obviamente fez alguns aumentos de gastos em relação ao que estava previsto. Aumentou bastante. É verdade também que a Câmara tem feito alguns projetos”, disse, ao reforçar que a política fiscal traz efeito para a curva longa de juros.
O presidente do BC disse ainda que os estrangeiros estão de olho na trajetória da dívida nos próximos 5 a 10 anos, e há ainda dúvidas se o Brasil conseguirá atingir uma convergência. Campos Neto repetiu que a dívida do País está entre as mais altas entre os emergentes.
Transição suave
A oito meses de terminar o mandato, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse nesta terça-feira, 30, que não vai interferir nem dar indicações no processo de sucessão do comando da autarquia.
Mais uma vez, ele expressou o compromisso de contribuir para uma transição suave, considerando ser ruim quando um governo em fim de mandato não compartilha informações com outro que vai assumir
“Quero fazer uma transição suave, do mesmo jeito que o Ilan Goldfajn, antecessor de Campos Neto fez comigo”, disse em entrevista à CNN Brasil, comandada pelo jornalista William Waack “Eu me comprometi a fazer isso. Não quero interferir nem dar nenhum tipo de sugestão de quem vai ser o sucessor. Quero fazer uma transição suave e tentar ajudar o máximo possível”, reiterou
Campos Neto classificou os anos na presidência do BC como os mais felizes de sua vida e de crescimento pessoal. “Quando você apanha, você aprende. No mundo privado também se apanha”, respondeu Campos Neto ao ser questionado por Waack se foi um período feliz mesmo “apanhando” em diversas ocasiões.
Após negar rumores de que abriria uma fintech em Miami, o presidente do BC assegurou hoje que não sabe o que vai fazer após deixar o BC. “Não decidi, não sei ainda. Eu quero focar no Banco Central até o fim, quero dar uma descansada depois de seis anos, quero fazer uma transição suave, como disse. Mas realmente não tenho fechado o que quero fazer”, afirmou.
Melhor política social
O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, ressaltou nesta terça-feira, 30, que o combate à inflação representa a melhor política social.
“As pessoas não percebem muito porque não temos inflação alta há muito tempo: a inflação é a pior coisa para a desigualdade”, declarou Campos Neto em entrevista à CNN Brasil. “A melhor política social é o controle da inflação. Por isso, o banco central autônomo é bom, ele vai ter essa visão de controle de preços e ter independência para que isso aconteça”, acrescentou
Ao ressaltar a linha técnica e apolítica do Banco Central, assim como o compromisso com a meta de inflação, Campos Neto disse que também não concordava com tudo que era proposto pelo governo anterior, que o indicou ao cargo. “Lembrando que a meta do Banco Central quem determina é o governo. A gente só executa”, pontuou
Durante a entrevista, Campos Neto disse que aprendeu a trabalhar com o Legislativo durante o seu mandato. “Acho que por ser um órgão técnico, a gente conviveu bem nesse período”, afirmou. Apesar de o País ter perdido muitas oportunidades, ele considerou que também houve avanços, como a reforma tributária, que colocam o Brasil entre os principais candidatos a receber investimentos da transição energética global.
Mundo vive vários movimentos ao mesmo tempo que geram custo
O presidente do Banco Central afirmou , que, apesar das discussões sobre a pressão exercida pela política fiscal no processo inflacionário, existem dois fatores do ponto de vista da produção que elevam os custos. Campos Neto citou a reacomodação das cadeias globais e o processo de tornar empresas mais sustentáveis, elementos que, segundo ele, não são baratos e trazem custos iniciais.
“O mundo está passando por várias coisas ao mesmo tempo que geram custos. E a própria tensão geopolítica. A gente não sabe qual é o preço da energia, o que vai acontecer com o barril de petróleo. A gente tem hoje uma situação no Oriente Médio que é muito difícil determinar (…) Tem muitos elementos de incerteza”, disse.
Campos Neto afirmou que a globalização está se transformando em segmentação em grandes grupos de comércio. “A globalização como a gente viu no passado está em xeque”, avaliou. O protecionismo no mundo também é citado por ele como outro elemento que gera custos e incertezas ao cenário econômico global.
O presidente do BC afirmou ainda que o Brasil é excelente candidato a ser base de produção de insumos sustentáveis pela sua capacidade em gerar fonte de energia renovável.
‘Moeda da vez’
Campos Neto afirmou que o debate sobre a “moeda da vez” no mundo pode estar ultrapassado em meio ao avanço dos sistemas de pagamentos instantâneos, ao ser questionado se a moeda chinesa poderá substituir o dólar. No futuro, segundo ele, a tendência é a de que seja possível fazer transferências em tempo real entre países com sistemas conectados.
Campos Neto também avaliou que seria difícil negociar ativos em uma moeda que não seja conversível, ao comentar sobre a possível predominância da moeda chinesa no mundo. “É muito difícil ter moeda global que não seja conversível, que não seja aberta, você precisa escolher qual lado você está”, disse.
Eleição nos EUA
O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse que não espera um impacto substancial das eleições nos Estados Unidos nos preços dos ativos.
“Tenho a percepção de que a eleição americana não tem tanto impacto nos mercados, nos preços internacionais”, disse o presidente do BC.
Apesar de citar diferenças dos dois principais candidatos – Joe Biden e Donald Trump – em temas como política externa e programas sociais, Campos Neto julgou que o evento não deve provocar uma ruptura nos mercados.
“As coisas vão mais ou menos se equilibrar”, projetou em entrevista.
Política fiscal e pandemia
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou nesta terça-feira, 30, que o tema política fiscal vai dominar o debate internacional e que o mundo estará de olho na agenda interna do Brasil. “Vai ser mais importante fazer o dever de casa”, disse em entrevista gravada à CNN.
Campos Neto repetiu que, após o aumento de despesas na pandemia, os países passaram a enfrentar uma falta de coordenação entre políticas monetária e fiscal. Ele citou que o custo de rolagem da dívida das nações desenvolvidas triplicou, o que reduz a liquidez em outros lugares.
No caso dos Estados Unidos, por exemplo, a manutenção dos juros altos por mais tempo do que esperado torna a vida dos países emergentes mais difícil, segundo ele. Campos Neto disse que o dólar mais valorizado frente ao real reflete justamente a percepção sobre os juros americanos.
Ele afirmou ainda que não existe relação entre a taxa de juros dos EUA e a taxa básica de juros no Brasil, a Selic. “Não existe relação da taxa de juros americana com a brasileira, mas tem influência nas variáveis que impactam nossa forma de trabalhar”, explicou.
Apesar dos desafios, Campos Neto ressaltou que a moeda brasileira se comportou relativamente bem à reprecificação dos juros. Ele disse que o temor dos juros mais altos nos EUA está ligado ao alto custo da dívida aos países pobres e ao encarecimento do acesso ao crédito privado.
Fim das desonerações
O presidente do Banco Central afirmou que políticas públicas são ótimas, mas reconheceu que a política fiscal no País está quase exaurida.
Em meio à queda de braço entre governo e Congresso sobre a extinção da política de desoneração da folha dos 17 setores, Campos Neto disse que, no geral, desonerações são ruins, principalmente quando são escolhidos setores específicos.
“Em geral, essas políticas melhoram os preços no curto prazo com um custo no longo prazo (…) É como se vendesse o almoço para comprar só metade do jantar”, disse em entrevista gravada à CNN, reforçando ser a favor da extinção da política de desoneração.
Em relação à reforma tributária, Campos Neto disse que a simplificação e remoção de distorção ajudam bastante o cenário econômico do País. Ele avaliou que a carga tributária no País é muito alta e há pouco espaço para elevá-la mais.
“Ela (carga) está naquele ponto que, se aumenta, diminui a arrecadação”, disse, ao reforçar que o Brasil está muito perto deste ponto. O presidente do BC reforçou que políticas de crescimento podem melhorar a carga de impostos no País.