Não concluir Angra 3 é insensatez
Maurício Corrêa, de Brasília —
Quem acompanha o “Paranoá Energia” sabe muito bem que o editor do site não concorda com praticamente nada do que é dito ou feito pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Aqui no site, ele é visto como marketeiro, politicamente oportunista e efetivamente preocupado, quase sempre, com os rumos da política mineira, pois é candidato a algum cargo federal em 2026.
Nesse contexto, o ministro faz menos do que deveria fazer pelo setor energético brasileiro. O ministro tem direito de ser assim e o site também tem o direito de não achar qualquer graça em Sua Excelência.
Mas pelo menos num ponto o site concorda com o ministro de Minas e Energia: é necessário concluir a construção da usina nuclear Angra 3.
Ninguém dúvida que Angra 3 é um elefante branco. Foi um tremendo erro estratégico iniciar a sua construção, já no final do regime militar. A obra se arrasta há 40 anos e, nas contas da Eletronuclear, cerca de 65% da usina foram concluídos. O projeto é um clone das outras duas nucleares, que funcionam sem problemas. Se algum dia ficar pronta, Angra 3 vai gerar 1.300 MW. Só que para isso acontecer talvez seja necessário gastar ainda algo em torno de R$ 20/25 bilhões.
É grana prá derreter. Mas muito dinheiro já foi aplicado em Angra 3 e seria total insensatez não terminar o projeto, mesmo considerando esse custo absurdo. Nisso, o ministro Alexandre Silveira, que costuma dizer um monte de abobrinhas, tem total razão e o “Paranoá Energia” concorda integralmente com Sua Excelência. Não acabar Angra 3 é uma decisão insensata. Seria pior paralisar o projeto em caráter definitivo e desmontar o que já foi feito.
O Congresso também tem a sua cota de irresponsabilidade em relação a Angra 3, não apenas o Poder Executivo. Durante décadas, o Congresso Nacional nunca se esforçou para entender o significado da energia nuclear na política energética e sempre teve enorme gosto em cortar o orçamento destinado à conclusão da usina. Bom, juntando a falta de sensibilidade do Poder Executivo e do Poder Legislativo, não há nada que vá para a frente e que dependa de recursos públicos.
O resultado é esse caos em relação a Angra 3, o que mostra o fracasso das lideranças políticas do País, que não têm sabido priorizar o orçamento. O fato também revela absoluta falta de planejamento governamental, não apenas do atual governo, mas de sucessivos governos, de vários partidos e ministros. Em suma, falta competência no mundo político para reconhecer a existência do problema, avaliá-lo corretamente e alocar os recursos para terminar a obra.
Embora o ministro de Minas e Energia seja favorável à conclusão da obra, isso infelizmente não quer dizer muita coisa. Sem querer entrar no mundo da política, é preciso dizer, contudo, que pelo menos na área de energia o governo atual não tem muita coisa a dizer, pois efetivamente não tem um projeto. Tem realizações, que são anunciadas de forma demagógica; algumas coisas seguem em frente e outras, não. Mas são fatos isolados, que não guardam muita conexão entre si, exatamente devido à falta de um planejamento sólido.
Angra 3 é um tremendo pepino a ser administrado.